(Forever) Teenage Dirtbag

yound adult na tarefa árdua de tentar ser alguma coisa de jeito.

Pausa na Vida

Quando ia jantar fora com as minhas amigas, era recorrente partilharmos as saudades que temos dos tempos de universidade e de erasmus. Queixarmo-nos muito e lamentarmos a sério a impossibilidade de voltar a ter essa vida. Terminamos a licenciatura e uma nova fase surgiu. Separamo-nos geograficamente, iniciamos o mestrado e começamos a trabalhar simultaneamente. É cansativo. Estudar e trabalhar é cansativo. Mas passa a voar. Como tudo ultimamente. A parte boa de ter muito que fazer é que, efetivamente, não damos pelo tempo passar.

Quando entreguei a tese pensei "finalmente estou livre" e julguei que iria ter mais tempo para tudo o que queria fazer ou para simplesmente não fazer nada (também gostava tanto dessa opção!). Depois entrei numas aulas de dança (algum exercício físico depois de 5 anos sem nada regular) e, uma vez mais, o tempo evaporou-se. À segunda tenho aula depois do trabalho assim como à quarta. Um jantar com as minhas amigas, uma ida a casa do meu pai e puff! é segunda de manhã outra vez e uma nova semana se inicia. Sentia-me mesmo como nos filmes em que o personagem entra em loop no momento de desligar o despertador. Manhã após manhã, café após café, deitar após deitar... Um loop gigantesco. Uma rotina mais que solifidificada. Eu não desgosto de rotinas. Encontro nelas um certo conforto. Não gostava, por exemplo, de ter feriados e de não ter plano para eles. Não gostava da ideia de ter tempo livre e de não ter o que fazer. Eu gosto de rotinas e até sou feliz dentro da minha rotina. Adoro os meus colegas de trabalho com quem partilho os meus dias. Adoro o que me rodeia na sua maioria.

Tinha combinado uns fins-de-semana fora, desde o início do ano, e comecei a sentir que era demais. Já nem estava a aproveitar esses fins-de-semana. Eu queria estar em casa, queria parar. Queria arrumar a casa, tratar das tarefas normais, parar em casa, fazer uma pausa em tudo. Estava cansada e só queria tempo para mim. Dizia isto às minhas amigas e elas vivem-no como eu, uma vida acelerada de coisas para fazer, demasiado trabalho, o tempo a correr mais rápido que nós. "Precisamos de uma pausa na vida, isto está muito acelerado". E eis que uma "força invisível e maior do que qualquer um de nós" nos obriga, assim quase de um dia para o outro, a fechar em casa, a cancelar tudo, a não planear nada. Nos obriga a parar em casa. Para mim, a questão do vírus divide-se em duas partes: a da doença e da pausa na vida. Por um lado, o caos que a doença causa é realmente heartbreaking. Não consigo ver imagens de Itália e não chorar. Por outro lado, este medo que nos é comum a todos e nos isola em cada casa. Encontro uma beleza filosófica sem igual, e quase inimaginável há uns tempos, nesta obrigatoriedade que é fazer uma pausa na vida como a conhecemos. Quase uma experiência social. Há um quê de mim que gosta desta experiência social. Não me custa nada estar em casa. Tenho sempre coisas, limpezas e arrumações para fazer... Durante a semana estou em teletrabalho pelo que o dia está quase todo, na mesma, ocupado. 

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