Entro em mais um autocarro, o 53, que encolhe os 300 kms que nos separam. Vou passar mais um fim-de-semana contigo. Repito o processo de há 2 semanas. A vida tem sido fixe para nós. Penso brevemente sobre que tipo de futuro é que isto tem. Chego à conclusão que esta é o melhor formato de relação possível. Todas as outras se esgotam em cenários negativos. Porém, não consigo evitar pensar que quero aquela relação estável que outros têm e parece dar tanto sentido às suas vidas. A coisa que sinto mais falta é ter alguém com quem adormecer à noite. O carinho, os afetos, o cuddling.
Viver este romance clandestino dá-me vida, por si só. Dás-me muito mais atenção que alguém alguma vez me deu. Saio de casa quase todos os dias com os teus Bons Dias e quase que telepaticamente temos a última conversa ali pelas 22h antes de ires dormir. E é engraçado porque o nosso sistema é tu mandares mensagem e conversamos a partir daí. E eu nem fico ansiosa nem stressada à espera porque, lá está, é telepático. Quando penso que são horas de mandares algo, lá vem a notificação no telemóvel e estampam-se um sorriso na minha cara. Não há ansiedades nem expectativas incumpridas. E eu que estou sempre à espera daquilo que vai falhar ou não ser tão bom, continuo à espera. Não podia pedir mais. Não que eu precise de atenção mas sabe bem. Aconchega saber que somos o pensamento de alguém. E depois temos tido a sorte de de quinze em quinze dias passarmos fins de semana juntos. As circunstâncias da vida ajudam e tu fazes acontecer. E é ótimo porque é passar o dia e a noite juntinhos a aproveitar o que a vida tem de melhor. Sabes sempre a férias para mim. Depois, temos a compatibilidade física e sexual que é espetacular. Uma tesão do caraças e vontade de experimentar mil e uma coisas.
O presente é ótimo e simples, de certa forma. Na realidade, basta-me a ideia de ter um amor correspondido apesar de ser socialmente impossível. Parece contraditório mas parece-me suficiente. Para quê ter amores socialmente possíveis que depois só nos esmagam a parte emocional e nos deixam infelizes? Este deixa-me feliz, mesmo. E isso, só assim, é a concretização da relação. É a love story.
Porém, não consigo evitar refletir sobre cenários possíveis. Não concebo a ideia de te separares da tua família. Não é uma possibilidade para mim. Também não é para ti portanto mais uma vez de acordo. Também sei que sempre terás as tuas aventuras assim como eu terei as minhas (e basicamente somos a aventura um do outro) porque nesse aspeto somos farinha do mesmo saco. Queremos sempre coisas diferentes apesar de até podermos ter o prato cheio. Também sei que esta paixão morreria se conhecesse outra forma. A distância aumenta o amor e a proximidade mata-o. E termos a possibilidade de de quando em vez passar dias fora ou férias juntos é uma sorte do caraças. Muitas relações não têm esta possibilidade. Nós temos. Por isso é que esta relação é o melhor de vários mundos apesar de sentir saudades e alguma insegurança às vezes. Verbalizo o meu discurso moderno e desapagado mas perco-me em cenários românticos e só me venho se em vez de sexo fizermos amor e imaginar que me dizes ao ouvido que me queres para sempre enquanto estás dentro de mim. Tenho que me relembrar que esta coisa é perfeita desta forma. E só desta forma. Que seremos um do outro para sempre, se nunca nos tivermos inteiramente nunca. Que posso ter outros, como podes ter outras, e que de alguma forma, tenho que saber que como é para mim é para ti, e os outros não significam o que tu significas. É um esforço que tenho que fazer porque as ideias enraizadas no cérebro são outras.
E depois tenho uma sensaçãozinha estúpida de sentir que estou meio à tona e tenho que me manter à tona e preencher a minha vida de outros acontecimentos para não cair num buraco. Como se tivesse que preencher o dia-a-dia de cenas para não sentir saudades nem gostar demasiado. E até acho a prática saudável se viesse de uma motivação que não fosse (talvez) a carência. Porém, todas as práticas saudáveis vêm da necessidade suprimir algum tipo de necessidade, portanto, talvez seja só normal e necessário.