(Forever) Teenage Dirtbag

yound adult na tarefa árdua de tentar ser alguma coisa de jeito.

A minha amiga teve um esgotamento

Esta semana foi um pequeno carrosel. Mais um, na verdade. Passei o último fim-de-semana na praia do Meco com o R. o que foi fabuloso. Depois voltei no domingo ao final do dia para o aniversário do meu pai e na segunda de manhã estava a trabalhar. Já tínhamos vindo a notar ao longo dos últimos dias que a J. estava ausente. Não respondia nos grupos, nem sequer ficava online, enviei mensagem e liguei e nada. Silêncio apenas. Liguei então à irmã dela e foi aí ficamos a saber (eu e a C.) que no fim-de-semana ela tinha passado mal e foi parar ao hospital. Não encontro palavras que embelezem a situação. Passou-se, teve um surto e foi ao hospital onde lhe deram calmantes e ela finalmente adormeceu. Diagnóstico: esgotamento. A J. tem 25 anos e teve um esgotamento. E tinha estado connosco há sete dias e não previmos isto. Sabíamos que ela estava insatisfeita com o trabalho e que era um ambiente tóxico e que tinha que sair de lá. Até fomos surpreendidas, uns diazitos antes com ela a dizer que já tinha arranjado um novo emprego (que é um timing ao mesmo tempo perfeito e que obriga a muita cautela) mas não vimos isto a acontecer. Um limite a ser atingido. Mas o trabalho não foi a única razão. A vida tem sido exigente e francamente injusta com a J, no último ano e meio. Faleceu-lhe o pai e teve que tratar de tudo (incluindo a transladação do corpo do estrangeiro para cá), depois teve que ir lá com um advogado fechar assuntos que não eram dela, depois teve que ir para tribunal com o senhorio da casa onde sempre viveu porque os estúpidos até de noite iam lá meter-lhes medo e dar cabo da casa, depois fez um crédito e arranjou um novo apartamento para ela e a mãe e a irmã, depois a mãe também demonstrado sinais de depressão o que torna a convivência familiar mais difícil e, como cereja no topo do bolo, arriscou num novo emprego em dezembro do ano passado que se revelou a maior merda de sempre ao ponto de ir parar ao hospital. E nem era por ser muito trabalho ou muito stress, era mesmo pelo ambiente tóxico da equipa. Diminuíram-na e fizeram dela gato sapato. A J. é das pessoas mais fortes e leves que eu tinha na minha vida. E na terça quando a fui ver ela não conseguia manter uma conversa. Esquecia-se de palavras, não tinha um fio condutor na conversação, estava super aluada, a um ritmo só dela, falava, parava, falava, parava como se ninguém estivesse à espera de a ouvir, colocava as mãos na cabeça e encolhia-se como se não estivéssemos ali. Foi triste. Não dormia uma noite seguida há semanas, simplesmentes em insónias sem conseguir desligar dos momentos do trabalho. A remoer cenas e bocas que se passaram. Nem conseguia pegar no pc da empresa. Meteu baixa e férias. Não volta a trabalhar para eles. Em setembro começa uma fase nova, num sítio novo. Mas será um mês suficiente para se recompôr? Eu não sei. Sei muito pouco sobre esgotamentos e, do que li, não é manifestamente suficiente. Ao longo da semana ela tem parecido melhor. Foi ao psicólogo que até foi animador e só marcou nova sessão para setembro. Já consegue dormir uma noite seguida sem medicação. Já conversa melhor mas o olhar dela continua meio perdido e caminha e fala ao seu ritmo mesmo que seja totalmente diferente do da pessoa ao lado. E, além disso, está obcecada com a ideia que lá no trabalho entraram nas redes dela, no computador, emails e até portal das finanças. Continua tão obcecada que me pediu para deixar de ter o blog público porque "não se coloca a vida inteira na net" disse ela numa mensagem que me pareceu tão rude e com tanto peso que voltei a ficar profundamente triste com o estado a que as coisas chegaram. A J. que eu conheço nunca me diria uma coisa dessas. Nunca, muito menos naquele contexto. Mas eu tenho que acreditar que ela vai voltar a ser a nossa J. com muito descanso, horas de sono, caminhadas e saídas com as amigas. Tem que voltar a ser o que era.

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